Nos registros produzidos no Brasil colonial, especialmente entre o século XIX e o início do XX, o que hoje se reconhece como Quimbanda — então chamada de “Macumba” — aparece quase sempre sob o olhar da repressão. Não eram textos escritos por praticantes, mas por autoridades policiais, cronistas, viajantes europeus e, mais tarde, estudiosos que observavam esses cultos como fenômenos marginais. Mesmo carregados de preconceito, esses registros são importantes porque descrevem com precisão os elementos materiais e espaciais das práticas.
Autos policiais mencionam com frequência pedras depositadas em encruzilhadas, acompanhadas de alimentos, bebidas alcoólicas e, às vezes, sangue. Essas pedras não eram tratadas como imagens ou ídolos, mas como objetos “suspeitos” colocados em pontos de cruzamento, revelando a associação direta entre o culto e o espaço da passagem e da escolha. A encruzilhada aparece como lugar funcional, onde caminhos se encontram e são redirecionados.
Outro elemento recorrente é o ferro enterrado ou cravado no chão. Facas, pregos e pedaços de metal surgem nos relatos, interpretados como sinais de violência, mas sua repetição indica uma tecnologia ritual: o ferro como instrumento de corte, fixação e ancoragem da força espiritual. Não aparece como ornamento, mas como ferramenta de ação direta.
Também são citadas cruzes riscadas no chão, traçadas em terra batida e associadas a oferendas. Nesse contexto, não representam devoção cristã, mas grafismos operacionais, linhas que se cruzam e marcam o espaço ritual. O símbolo funciona como inscrição no território, não como imagem devocional.
Muitos documentos descrevem montes de terra contendo alimentos, bebidas e sangue animal. Não eram altares no sentido europeu, mas ajuntamentos de matéria orgânica e mineral, reforçando a centralidade da terra como elemento ativo do rito, receptáculo e meio de circulação da força espiritual.
Objetos quebrados, garrafas estilhaçadas e utensílios cortantes completam o cenário. Para observadores externos, isso parecia desordem; dentro de uma leitura ritual, indica práticas de corte, ruptura e descarrego, voltadas à movimentação e intervenção na realidade.
É significativo que esses registros não mencionem estátuas humanoides associadas a Exu. Quando citado, Exu aparece como “força do caminho” ou “espírito do cruzamento”, definido por função e espaço, não por forma. Isso sugere que, naquele período, Exu não era representado visualmente, mas ativado pela ação ritual.
Esses documentos mostram que a macumba se organizava a partir de fundamentos materiais e espaciais — terra, ferro, cruzamentos — e não de imagens. A ausência de figuras humanoides não era limitação, mas coerência com uma cosmologia onde o espírito se manifesta pela ação e pela presença funcional, não pela aparência.